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A força de quem planta!

Progresso

O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho de seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada – e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou- a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta metade vermelha, colocando a então no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos.

“Como é que funciona pai?” – o menino perguntou. “É assim que funciona…” respondeu o pai. A seguir colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquilografar” (era assim que meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a maquina em ação, o menino fez um “oh”de espanto. “que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso…”.

O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Corázar, que se chama, se não me engano “A história das invenções”. Só que tudo começa num vôo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas… E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor… Até que depois, depois de muito progresso, a invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os homens inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…

in “do Universo à jabuticaba”, Rubem Alves

Para que serve a psicanálise?

CONTARDO CALLIGARIS

A quem luta para se manter adulto, o paternalismo dá calafrios, ou mesmo vontade de sair atirando

A ASSOCIAÇÃO Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910. Presente em 33 países, com mais de 12 mil membros, ela festeja seu centésimo aniversário. Aos colegas da IPA (embora eu tenha me formado numa de suas dissidências), meus sinceros parabéns.
A festa é uma boa ocasião para perguntar: para que serve, hoje, a psicanálise? A campanha eleitoral em curso me ajuda a escolher uma resposta.
Repetidamente, o presidente Lula e Dilma Rousseff se apresentam como pai e mãe dos brasileiros. Em 17/8, Lula declarou: “A palavra não é governar, a palavra é cuidar: quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo, como a mãe cuida de seu filho”.
No dia seguinte, Marina Silva comentou: “Querem infantilizar o Brasil com essa história de pai e mãe”. Várias vozes (por exemplo, o editorial da Folha de 19/8) manifestaram um mal-estar; Gilberto Dimenstein resumiu perfeitamente: “Trazer a lógica familiar para a política signifi ca colocar a criança recebendo a proteção de um pai em vez de um governante atendendo a um cidadão que paga imposto”.
Entendo que um presidente ou uma candidata se apresentem como pai ou mãe do povo. Embora haja precedentes péssimos (de Vargas a Stálin, ao ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il), estou mais que disposto a acreditar que Lula e Dilma se expressem dessa forma com as melhores intenções.
O que me choca é que eleitores possam ser seduzidos pela ideia de serem cuidados como crianças e preferi-la à de serem governados como adultos.
Se o governo for paternal ou maternal, o que o cidadão espera nunca será exigível, mas sempre outorgado como um presente concedido por generosidade amorosa; o vínculo entre cidadão e governo se parecerá com o tragipastelão afetivo da vida de família: dívidas impagáveis, culpas, ciúme passional etc. Alguém gosta disso?
Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do qu e parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância. Ao longo da cura, espera-se que essa descoberta nos liberte e nos permita, por exemplo, renunciar à tutela dos pais e ao prazer (duvidoso) de encarnarmos para sempre a criança “maravilhosa” com a qual eles sonhavam e talvez ainda sonhem.
Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado. Por isso mesmo, a quem luta para se manter adulto, qualquer paternalismo dá calafrios -ou vontade de sair atirando, como Roberto Zucco.
Roberto Succo (com “s”), veneziano, em 1981, matou a mãe e o pai; logo, fugiu do manicômio onde fora internado e, durante anos, matou, estuprou e sequestrou pela Europa afora. Em 1989, Bernard-Marie Koltès inspirou-se na história de Succo para escrever “Roberto Zucco”, peça admiravelmente encenada, hoje, em São Paulo, na praça Roosevelt, pelos Satyros.
Na peça, Zucco perpetra realmente aqueles crimes que todos perpetramos simbolicament e, para nos tornarmos adultos: “matar” o pai, a mãe e, dentro de nós, a criança que devemos deixar de ser.
Se o Estado é um pai ou uma mãe para mim, eu não tenho deveres, só dívidas amorosas, e, se esse Estado me desrespeita, é que ele me rejeita, que ele trai meu amor. Por esse caminho, amado ou traído pelo Estado, nunca me considerarei como um entre outros (o que é uma condição básica da vida em sociedade), mas sempre como a menina dos olhos do poder.
Agora, se eu me sentir traído, não me contentarei em mudar meu voto, mas procurarei vingança no corpo a corpo, quem sabe arma na mão; pois essa é a linguagem d a paixão e de suas decepções. O paternalismo, em suma, semeia violência.
Enfim, se é verdade que muitos prefeririam ser objeto de cuidados maternos ou paternos a serem “friamente” governados, pois bem, nesse caso, a psicanálise ainda tem várias boas décadas de utilidade pública entre nós.
É uma boa notícia para a psicanálise. Não é uma boa notícia para o mundo fora dos consultório.

Mão na massa

Exemplos de que com pouco dinheiro, alguma disposição e muita boa vontade podemos construir ambientes muito melhores. Em ambientes melhores  nos sentimos mais seguros e alegres.

O Homem sem País

Me veio a cabeça a frase um homem sem paz. Como deve ser duro saber-se tão vulnerável. Diz o autor, e ator, da peça que o limiar entre a consciência e a perda desta adentrando o universo da loucura é pequeno nesta situação.

Revirar sacos de lixo em busca de alimento, dormir de exaustão depois de se perder nos dias da semana.  Palavras de quem morou na rua e trabalha para quem nela mora e dessa realidade conhece. Vale a pena prestigiar Sebastião.

rota de colisão

Um estudo feito com dados da Prefeitura de São Paulo e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que, de 1996 a 2005, regiões centrais da cidade apresentaram o dobro da taxa média de suicídios da periferia.

Enquanto os bairros centrais tiveram, em média, 6,3 casos para 100 mil habitantes por ano durante o período estudado, aqueles localizados em áreas mais distantes, na zona sul da cidade, apresentaram 3,3 casos. Ocorreram 4.275 mortes por suicídio no período.

O trabalho, feito na USP (Universidade de São Paulo), será publicado em livro.

O pesquisador afirma que o elevado grau de urbanização e o isolamento típico das grandes cidades -características que podem estar relacionadas a maiores índices de suicídio- são encontrados em São Paulo principalmente na área central.

“Em São Paulo, existe uma relação da localidade com a renda -a periferia é mais pobre. Alguns estudos mostram que países mais ricos têm taxas mais altas de suicídio. Trouxemos essa discussão [da renda] para nossa pesquisa”, diz o geógrafo Daniel Bando, responsável pelo trabalho.

Além da renda, a pesquisa também relaciona outros fatores de risco de suicídio, mencionados pela OMS (Organização Mundial da Saúde), às maiores taxas nos bairros centrais. Segundo dados do IBGE, esses locais concentram mais solteiros e separados, estados civis relacionados a maiores chances de suicídio. Em contrapartida, há maior percentual de casados na periferia.

A migração também é fator de risco. Alguns bairros centrais são conhecidos por suas comunidades estrangeiras e de outras partes do país.

“Regiões em que as pessoas perdem suas características culturais têm índices mais altos de suicídio. No caso dos migrantes brasileiros, não existe a barreira da língua, mas as culturas podem ser muito diferentes em uma cidade muito mais complexa do que as de origem desses novos moradores”, explica a psiquiatra Sabrina Stefanello, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e pesquisadora em suicídio na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Indicativos

No Brasil, estimativas sugerem que ocorram 24 suicídios por dia, mas o número deve ser 20% maior, pois muitos casos não são registrados. A quantidade de tentativas é de dez a 20 vezes mais alta que a de mortes. Entre os jovens, a taxa multiplicou-se por dez de 1980 a 2000: de 0,4 para 4.

O número de casos de suicídio cresceu 60% nos últimos 45 anos, de acordo com a OMS. A organização estima que, de 2002 a 2020, o aumento será de 74%, chegando a um suicídio a cada 20 segundos -hoje, a taxa é de um a cada 40 segundos.

“O que há de mais concreto [para explicar o aumento] é a associação com transtornos mentais, principalmente a depressão, mais presente e identificada hoje”, diz Stefanello.

Pessoas que pensam em tirar a própria vida costumam manifestar sinais. “A maioria comenta com alguém próximo. Existe um mito de que quem quer se matar não fala, mas não é verdade. Diz algo como “minha vida não vale mais a pena”, mostra desesperança”, diz.

Gafe da natureza?

“Para que serve a espécie humana? Será ela uma gafe da natureza?”                   Hélio Pelegrino