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Homenagem de um lado, trajédia de outro.

Enquanto acontecia a homenagem ao Sr Antônio Bertolucci, que faleceu ao ser atropelado enquanto pedalava numa alça de acesso à Sumaré, houve outra morte de ciclista, pouco noticiada, mas igualmente num conflito com os gigantescos ônibus.

“Um adolescente Carlos Jorge Machado Martins, de 15 anos, morreu após ser atropelado por um ônibus na última segunda-feira 13 de Junho. Por volta das 20 horas, na rua guaiauna, no bairro da penha, em São Paulo. ele chegou a ser socorrido mas não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital.
O motorista do ônibus contou que trafegava pela via dentro da velocidade permitida e que ao cruzar um semáforo que estava aberto, carlos e outros dois adolescentes que estavam de bicicleta atravessaram na frente do veículo. a vítima bateu na lateral do ônibus perto da porta de desembarque.

O adolescente foi socorrido ao hospital municipal do tatuapé e o motorista estava com a cnh vencida há cerca de um mês, mas disse não ter percebido. O caso foi registrado no 10º DP como homicídio culposo na direção de veículo automotor e dirigir sem permissão ou habilitação.”

No senado federal há um esboço de atitude, assim como na Câmera Municipal de São Paulo , desejamos que traga frutos concretos, e que não seja apenas uma reação momentânea enquanto os ânimos estão exaltados e o fato fresco na memória.

Na mesma segunda feira 13, saiu uma matéria na folha onde o diretor de Trânsito da Espanha, Pere Navarro Olivella, afirma entre outras coisas que: “Acidente viário deve ser combatido como doença grave” e afirma que aceitar a taxa de 100 mortes diárias é assumir que existe uma guerra.

Menos de duas semanas antes o ouvidor da secretária municipal dos transportes, Sr. Luis Sérgio Bottura” afirmou que “Multas são melhor cartilha para educar motorista”.  Ele está certo! Só punindo as infrações teremos um comportamento de trânsito mais seguro.

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À Familia de Antonio Bertolucci

Tirei essa foto no começo da noite, no meio da névoa a canela me parou, me fez sentir a alegria de sua simples existência.  Alegria misturada a angustia de pensar que um dia ela pode não mais estar ali.

Não sabia do ocorrido com o Sr Antonio Bertolucci. Na estrada, às 21h recebi um sms comunicando que um senhor de 68 anos falecera na avenida sumaré enquanto pedalava.  Quando soube vim triste…., sentindo a dor de perder um amigo que não conheci, dedico a ele e sua familia essa foto, e essa breve oração atribuída ao Almirante Horst.

Dai-nos força, Senhor, para aceitar com serenidade tudo o que não pode ser mudado.

Dai-nos coragem para mudar o que pode, e deve ser mudado.

Dai-nos sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

Têm muita gente lutando para melhorar essa lamentável realidade Paulistana para com o uso da bici como meio de transporte. Isso pode, e vai ser melhorado!

Sobre o morrer, a morte e a despedida

Li um poema hj sobre o tema, que infelizmente não tenho a capacidade de traduzir como gostaria, mas, vamos lá…

“Frente a minha morte não temo,
apenas temo pela morte dos que me são próximos.
Como viver se eles não estiverem mais aqui?
Sozinho na névoa tateio um caminho,
deixe me ir com vontade para o escuro,
ir doe menos da metade de ficar.
Aquele que sentiu o mesmo sabe,
aqueles que não concordam que possam me desculpar,
mas pensem: a própria morte apenas se morre,
mas com a morte dos outros temos de viver.

Mascha Kaléko

Na semana que passou, ciclistas homenagearam a Márcia que nesse dia 17, teria completado 42 anos de vida; não fosse a pressa demasiada de um motorista de ônibus.  Segundo a organização Chega de acidentes que iniciou seus trabalhos no mesmo dia 17, em pouco mais de um ano tivemos mais de 44 mil mortes nas ruas e estradas do Pais. A pergunta que continua no ar:

Foto: Palmas

Um é demais

Quatro, nem se fala… já participei da colocação de quatro bicicletas brancas,  na cidade, me sinto triste e feliz com isso.  Triste por motivos óbvios. Feliz por ver o espírito de equipe e de luta das pessoas que se põe a pedalar nessa cidade, que conseguem homenagear algumas das inúmeras pessoas que morrem por causa dessa estúpida guerra no trânsito.

Como questionou um amigo: “Quem será o próximo?” Não sei, mas parece que podemos diante das frias estatísticas afirmar que o próximo já foi. Se não era ciclista é provável que seja motoqueiro ou pedestre, e que o mordomo era um carro ou ônibus.

A foto abaixo tirei na manhã do dia 27/03, fiquei ali olhando pro Miranda (estátua x) e pensando que seria muito simpático se ele fosse tirar umas férias e desse lugar a um ciclista. Esse campo de batalha não é o dele… deve se sentir deslocado.

Férias pro Miranda

Ele ali, pronto para desembainhar seu sabre, será que faz idéia de como as pessoas têm lutado para conviver numa cidade mais humana? Até de atos para proibir o porte de armas muitos participaram.  Sugiro que passe férias num outro local, que ali possa ser exposta uma homenagem ao ciclista simples, que a cada giro de pedal contribui para uma cidade melhor.

Podia ser um mix dessas duas imagens. Algo que tenha mais haver com as batalhas ali travadas.

Sampas

No fim de semana coisas muito diferentes aconteceram na cidade. Sexta a noite a cidade teve mais um encontro da massa critica em um lado da cidade. Enquanto em outro ocorria uma manifestação de professores, que sofreu com a violência policial generalizada, tão típica e lamentável.

No Sábado num lado da cidade os órgãos oficiais inauguravam um novo complexo viário, do qual você escutará muito nesse ano eleitoral. Na zona Sul pessoas comuns lamentavam a morte de mais um ciclista, que poderia ter sido qualquer um deles. Homenagearam-no colocando uma bicicleta branca no local onde ocorreu o acidente.

Homenagem a Manuel Pereira Torres 53 anos.

Velas foram acesas em sua homenagem.

A frase escrita no chão apela para a consciência de quem usa motores para se locomover, buscando esclarecer sobre os perigos da diferença de velocidade.

O Willian escreveu um post muito bonito sobre esse dia.

Domingo um pedal verde, para descansarmos para a nova semana de luta um que se inicia.

Muitas são as São Paulo possíveis, cada um pode escolher, e lutar por aquela em que acredita!

Mais um dia 14

No sábado passado, mesmo dia em que um grupo de ciclistas homenageava dois cidadãos atropelados na zona sul da cidade de São Paulo, não longe dali no município de São Bernardo outro atropelamento seguido de morte a um ciclista aconteceu.  Ele estava em cima da calçada, e foi atropelado por causa de um racha… Ok, o motorista está preso, será indiciado por homicídio doloso, com intenção de matar. Mas isso basta?

No mesmo fim de semana o conhecido programa fantástico falou da imprudência no trânsito, não assisti,  será que falaram da falta de multas? Seria bacana se cogitassem parar de transmitir a F1 esse evento que nada de esportivo têm. Só faz com que o imaginário das pessoas se volte ao sonhado primeiro lugar no próximo farol.

Foto do dia 13, acidente na Radial Leste.

Alan Morici/Futura Press

O motorista, que não sobreviveu, era policial, diz a matéria. Se nossos policiais dirigem desta forma nas madrugadas paulistanas, o que esperar de um jovem inexperiente? A constante sedução exercida sobre este jovem ao longo de sua vida (inclusive por corridas) incentiva um comportamento transgressor que raramente é punido. Como citamos algumas vezes aqui multas são raras e quando são aplicadas tendem a ser vistas por muitos como uma “indústria de multas”.

Para perceber o quão raras são, é simples.  Vá a um cruzamento importante da cidade em horário de pico, dê preferência aos que têm marronzinhos. Observe-o por meia hora e veja quantas das infrações cometidas ele anota. Isso por que sua presença já coíbe as pessoas de cometerem as infrações, que em outros pontos são regra. Como o conhecido farol amarelo que quer dizer o que? Atenção… não, aqui em São Paulo não… aqui significa acelera que vc. passa.

Enquanto isso morrem pessoas aos montes, todos os dias. Uma guerra não declarada que privilegia aqueles que dirigem com suas cabeças cheias de vento, atrás de airbags, barras de proteção lateral e outras parafernalhas.

Dia 14… 10 meses depois.

Mais uma triste bici fantasma é fixada, dez meses depois da morte da Márcia. Agora no Largo do Socorro, zona sul de São Paulo, e desta vez acompanhada de uma vassoura branca em homenagem ao gari Antonio, que junto com o ciclista Fernando esperava abrir o farol no largo do socorro.

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Ao invés de fazer a curva à direita foi reto o ônibus. Na direção onde, nesta foto, se encontram seus colegas de profissão.

Ali ajudaram a  deixar uma mensagem. Mensagem cheia de vida…

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No trânsito há vidas. Vidas em trânsito!

Um espaço para o encontro, para o potencial reencontro, é isso que devem ser as ruas, não espaços de disputa e desencontros. Como fica a cabeça de quem perde uma pessoa querida numa situação como esta? Como as crianças destas familias ficarão tranqüilas numa travessia agora? Haverá um suporte para estas por parte da companhia de ônibus? E os varredores, com que cabeça cuidarão daquele setor?

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O triste encontro de uma bici e uma vassoura.

Resta nos lamentar mais este triste episódio e de alguma forma trabalhar para que estas homenagens se tornem o mais raras possíveis. Pesa saber que várias esquinas, vários espaços de nossas cidades estão tão violentos. Sujeitos à lei do mais forte, e a uma irracionalidade do individualismo que busca constantemente solucionar problemas coletivos de forma individual.

Poderiam ao invés de fazerem o mono-trilho para a copa, que vai do aeroporto ao estádio pensar em outros caminhos, pensar em fazer na rua mesmo um bonde do terminal Varginia ao Sto. amaro, ou do Sto. Amaro ao Bandeira, ou os dois. E deixar que os convidados da copa, usem taxis para ir ao estádio.

O governo parece estar fora dos trilhos, sem objetivo… ou com objetivos equivocados passa a  investir no que acredita trazer mais frutos políticos.  Pode ser que num primeiro momento chiem todos ao transformar um corredor de ônibus em bonde. Mas não podemos ir  numa direção oposta ao que precisamos. Cada passo na direção errada nos afasta mais de nossos objetivos.

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Peça de arte em frente a assembléia do estado de São Paulo